Corpo Clínico da Santa Casa de Itapeva rompe o silêncio e cobra pagamento em dia da Prefeitura
Médicos denunciam atrasos salariais desde janeiro,
apontam ingerência do Executivo e cobram respeito da gestão pública municipal
Após meses de espera e promessas não
cumpridas, o Corpo Clínico da Santa Casa de Misericórdia de Itapeva resolveu
tornar público um grave problema que se arrasta desde o início do ano: o atraso
sistemático nos pagamentos dos honorários médicos. Em nota oficial divulgada
nesta quinta-feira (24), os 150 médicos que compõem o quadro da instituição
denunciaram a instabilidade financeira que têm enfrentado, apontando que a
maioria dos profissionais atua exclusivamente na unidade hospitalar e depende
diretamente do salário mensal para manter suas atividades.
A insatisfação dos profissionais de saúde, que representam a
espinha dorsal do atendimento hospitalar de Itapeva e de outros 27 municípios
da região, ganhou contornos mais sérios após a confirmação de um novo atraso
salarial, mesmo após reuniões entre os representantes médicos e setores da
administração. O cenário, segundo os médicos, tornou-se insustentável e reflete
uma combinação de descaso administrativo, entraves burocráticos e, segundo
eles, “travas impostas pelo gestor municipal”, sem citar nomes, mas numa clara
referência à Prefeitura de Itapeva.
A Santa Casa de Misericórdia de Itapeva é reconhecida como
referência regional em atendimentos de média e alta complexidade. Abrangendo
serviços de urgência e emergência, obstetrícia, traumatologia, neurocirurgia,
clínica médica, cirurgia geral e unidades de terapia intensiva — tanto para
adultos quanto neonatais —, o hospital atende diretamente uma população
estimada em 260 mil habitantes. Com os atendimentos de alta complexidade, como
oncologia e hemodiálise, a abrangência sobe para mais de 720 mil pessoas.
Nesse contexto, o trabalho dos médicos é considerado
essencial não apenas para Itapeva, mas para toda a região sudoeste do estado. E
é justamente essa essencialidade que torna a situação ainda mais grave.
Conforme o relato dos profissionais, os atrasos começaram em janeiro e
persistem até agora, mesmo com os médicos mantendo, segundo eles, “a excelência
no atendimento à população”.
“Somos prestadores de serviço que recebem nossos honorários
quase um mês após a finalização do mês anterior, e, mesmo assim, não deixamos
de cumprir e honrar nossa prestação de serviço essencial”, destaca a nota
assinada pelo Corpo Clínico.
Os médicos afirmam que, além dos atrasos, há falhas no
processo de formalização contratual com a Prefeitura, o que agrava o impasse.
Mesmo quando há sinalização de que os contratos seriam regularizados, o que se
vê, segundo a nota, é uma postergação contínua e ausência de garantias
efetivas. O grupo lembra que a simples assinatura do contrato não assegura o
pagamento em dia — como já ocorreu, segundo eles, com os repasses vinculados ao
piso nacional da enfermagem, também alvo de atrasos por parte do Executivo
municipal.
A nota ainda aponta que os pagamentos não estão atrasados
por questões burocráticas ou técnicas, mas por travas deliberadas por parte da
gestão pública. Sem citar diretamente o nome da prefeita Adriana Duch (MDB),
os médicos sugerem que há uma condução inadequada e morosa por parte do comando
municipal, o que, segundo eles, demonstra falta de respeito com os
profissionais e com a população que depende da assistência médica oferecida
pela Santa Casa.
Além do tom indignado, a nota apresenta uma cobrança clara:
o cumprimento rigoroso dos repasses financeiros nas datas previamente
acordadas. Também pedem diálogo com mais transparência e respeito com a classe
médica, além de medidas estruturantes que evitem a repetição dos mesmos
problemas em 2025.
“Expressamos nosso descontentamento e indignação diante da
falta de respeito demonstrada para com os profissionais que, incansavelmente,
continuam a oferecer atendimento sem comprometer a qualidade dos serviços
prestados à população”, conclui o comunicado.
Nos bastidores, o clima é de tensão. Parte do corpo médico
já fala em possíveis paralisações futuras caso a situação não seja regularizada
de forma definitiva. Apesar disso, por ora, os atendimentos seguem sendo
realizados normalmente.
A reportagem tentou contato com a assessoria da Prefeitura
de Itapeva para ouvir a versão da administração municipal sobre as denúncias
feitas pelo Corpo Clínico da Santa Casa, mas até o fechamento deste texto,
nenhuma resposta oficial havia sido enviada.
O volume de atendimentos da Santa Casa de Itapeva
impressiona: além dos moradores do município, a instituição recebe pacientes de
Apiaí, Ribeira, Capão Bonito, Guapiara, Nova Campina, Itaberá, Ribeirão Branco,
Taquarivaí, Itaporanga, entre outros municípios que integram o Consórcio
Intermunicipal da Saúde do Sudoeste Paulista (Consaúde) e que dependem da Santa
Casa para acesso a serviços especializados que não são oferecidos localmente.
Isso inclui cirurgias de alta complexidade, partos de risco, UTI neonatal,
oncologia e procedimentos de emergência.
A importância da instituição é tamanha que eventuais
paralisações ou colapsos administrativos teriam reflexo imediato na rede
regional, forçando a busca por atendimento em cidades distantes como Sorocaba,
Itapetininga ou até mesmo São Paulo — o que, para famílias vulneráveis,
significa gastos insustentáveis com deslocamento e hospedagem, além do risco de
agravamento do quadro clínico em virtude da demora.
Por isso, a cobrança dos médicos não deve ser vista como um
ato corporativista, mas como um alerta ao colapso iminente. A situação vai além
de uma simples questão trabalhista: trata-se da sobrevivência de um modelo de
atendimento público que já opera no limite.
Nos corredores da Santa Casa, a revolta é contida, mas
crescente. Profissionais que se dedicam integralmente à unidade hospitalar —
muitos há mais de uma década — sentem-se desvalorizados e desamparados. Há quem
relate atrasos no pagamento do aluguel, da escola dos filhos e até mesmo
dificuldades para manter consultórios abertos na cidade.
“O que nos revolta é que não estamos pedindo aumento.
Estamos pedindo o mínimo: o pagamento pelo serviço que já foi prestado”,
comentou um médico ouvido sob anonimato.
A sensação de desprezo por parte da gestão pública, somada
ao silêncio oficial diante da nota de descontentamento, acirra ainda mais os
ânimos. Com a pressão pública agora estabelecida, a Prefeitura terá que decidir
se enfrentará o tema de forma transparente ou se optará, mais uma vez, por
empurrar o problema com a barriga.
Seja como for, o recado está dado. O Corpo Clínico da Santa
Casa de Itapeva cansou de esperar. E se a medicina é uma ciência da paciência,
a dos médicos de Itapeva está no limite.
Matéria produzida pelo Jornal No Alvo. Caso a Prefeitura
deseje se manifestar, o espaço está aberto.
Segue nota na íntegra: 

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