Ministério Público e Polícia Militar cumprem mandado de busca no hospital de Piraju em investigação sobre cobrança indevida de cirurgias do SUS
Ação comandada pelos promotores Francisco Antonio Nieri
Matosinho e Vinícius Scolanzi apura suposta prática de corrupção passiva
envolvendo médicos que teriam cobrado R$ 10 mil por procedimento custeado pelo
Ministério da Saúde
O Ministério Público de São Paulo, com apoio da Polícia
Militar, cumpriu na tarde desta quarta-feira, 8 de outubro, um mandado de busca
e apreensão no Hospital de Piraju, em uma operação que investiga suposta
cobrança indevida por cirurgias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A
diligência, acompanhada pelos promotores de justiça Francisco Antonio Nieri
Matosinho e Vinícius Scolanzi, mobilizou um grande efetivo policial e também se
estendeu ao Centro de Especialidades Médicas — conhecido como Postão — e a uma
clínica particular da cidade.
A ação é resultado de uma denúncia recebida pelo Ministério
Público, que aponta indícios de corrupção passiva envolvendo dois médicos
integrantes do corpo clínico do hospital. Segundo a investigação, os
profissionais teriam exigido pagamento de pacientes para a realização de
cirurgias que, na prática, já eram custeadas com recursos do Ministério da
Saúde, por meio do SUS.
De acordo com a apuração preliminar, em um dos casos mais
emblemáticos, familiares de uma paciente foram informados de que, caso optassem
pelo atendimento regular do SUS, o procedimento cirúrgico “só seria realizado
no ano seguinte em razão da demora da fila”. Diante da urgência e da orientação
recebida, a família teria aceitado a proposta de pagar R$ 10 mil diretamente ao
médico responsável. O valor foi transferido via PIX pela filha da paciente,
conforme consta nos autos.
O promotor Francisco Matosinho destacou que o caso, embora ainda em
fase de investigação, “revela indícios de graves violações éticas e legais” e
reforçou que a atuação do Ministério Público “visa proteger o direito do
cidadão ao atendimento público gratuito e impedir que o acesso à saúde se torne
um privilégio condicionado ao pagamento”.
O mandado, expedido pelo juiz de Direito Leandro Ebúrneo
Laposta, determinou não apenas as buscas em endereços relacionados aos
investigados, mas também uma série de medidas cautelares pessoais contra um dos
médicos. Entre elas estão: a suspensão do contrato com a Sociedade de
Beneficência de Piraju (entidade mantenedora do hospital), a proibição de
frequentar o hospital e o Postão, comparecimento bimestral em juízo, proibição
de contato com o outro médico investigado, com as vítimas e testemunhas, além
da proibição de se ausentar da Comarca sem autorização judicial.
Em um dos trechos do inquérito, o Ministério Público
descreve que o profissional se recusou a fornecer comprovante de pagamento à
família, “sustentando que tal fato demonstra sua consciência da ilicitude dos
atos praticados”. A recusa, segundo os promotores, reforça a materialidade da
denúncia e a necessidade das medidas judiciais.
A Sociedade de Beneficência de Piraju, mantenedora do
hospital, divulgou nota oficial nas redes sociais logo após a operação. No
comunicado, a direção afirma que a participação da entidade “se restringiu ao
fornecimento de prontuários médicos de pacientes solicitados pela Justiça” e
que a instituição “mantém compromisso absoluto com a verdade dos fatos e com a
transparência perante a população”.
Em resposta à reportagem, o promotor Francisco Antonio Nieri
Matosinho confirmou na manhã desta quinta-feira (9) que o Ministério Público
continua recebendo informações e incentiva o envio de novas denúncias
relacionadas à eventual cobrança por cirurgias realizadas pelo SUS em Piraju.
“A investigação está sendo conduzida com rigor técnico e observância ao devido
processo legal. Todos os fatos serão apurados com isenção, imparcialidade e
respeito aos direitos individuais e coletivos”, declarou.
A operação mobilizou equipes da Polícia Militar, que atuaram
no cumprimento do mandado em conjunto com os promotores. Fontes ligadas à
investigação informaram que a presença policial foi necessária para garantir o
cumprimento das ordens judiciais em segurança, uma vez que os investigados
mantêm vínculos ativos com a unidade hospitalar e o fluxo de pacientes no local
é intenso.
O Ministério Público também avalia a possibilidade de ampliar o inquérito para investigar se outros profissionais de saúde participavam do esquema ou se havia conivência de gestores hospitalares. A promotoria ressalta que, por ora, não há indícios de envolvimento institucional, mas que as apurações seguem sob sigilo judicial.


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