Santa Casa diz que precisa de custeio. A Prefeitura responde com silêncio. A Câmara com palmas.
A sessão da Câmara Municipal de Itapeva desta quinta-feira,
6 de novembro, fugiu da rotina. A plateia tomada pela direção da Santa Casa,
funcionários e familiares acompanhou, em silêncio atento, uma apresentação que
expôs com números e projeções a situação de fragilidade financeira do principal
hospital da região. A Tribuna do Povo foi utilizada por Kiko Stuart,
representante da direção da Santa Casa, que detalhou o cenário para os
vereadores: o hospital poderá iniciar o ano de 2026 com um déficit de quase nove
milhões de reais, mesmo após cortes internos, reorganização de processos e
ações de eficiência dentro da instituição. Segundo ele, a Santa Casa tem
investido em melhorias de gestão, modernização de agendamentos, reestruturação
do laboratório, primarização do banco de sangue e criação de novas
possibilidades de receita, mas ainda assim o subfinanciamento do SUS compromete
a sustentabilidade da operação.
Durante a exposição, Kiko Stuart mostrou que a Santa Casa
realiza, em média, 846 internações por mês, além de quase 3 mil atendimentos de
urgência e emergência. Metade desses atendimentos, porém, corresponde a casos
classificados como verde ou azul — ou seja, situações que deveriam ser
resolvidas nas unidades básicas de saúde ou na UPA. Ele explicou que esse
desvio sobrecarrega o hospital e gera despesas não ressarcidas, o que contribui
para o desequilíbrio financeiro. Em um dos momentos mais contundentes de sua
fala, afirmou que “não há mais onde cortar sem prejudicar diretamente o
atendimento da população”. De acordo com os dados apresentados, 89% de
todas as despesas da Santa Casa são concentradas em três frentes: folha
salarial, pagamento de médicos e compra de medicamentos. Essas despesas,
por sua natureza, não podem ser reduzidas sem comprometer a qualidade e a
capacidade de atendimento do hospital.
O ponto mais sensível da prestação de contas foi o pedido
feito diretamente aos vereadores. Stuart explicou que muitas emendas
parlamentares acabam destinadas a cirurgias eletivas e aquisição de
equipamentos, mas esse tipo de recurso não influencia o caixa. Quando o
dinheiro entra, é imediatamente consumido pelo próprio procedimento, e o saldo
final para o hospital é zero. Ele pediu que, a partir de agora, os vereadores
direcionem suas emendas exclusivamente para custeio — o que paga contas,
medicamentos, materiais e profissionais — e não para investimentos isolados. Em
suas palavras, “quando uma emenda é destinada para cirurgias, o dinheiro
entra e sai. Não sobra nada. Para a Santa Casa continuar funcionando, o que
mantém o hospital vivo é o custeio.”
Após o encerramento da exposição, a reação do plenário foi
imediata. O vereador Tarzan foi o primeiro a utilizar a tribuna e, em discurso
firme, criticou as prioridades de gasto do município. Ele comparou o esforço da
Santa Casa para se manter — realizando rifas, eventos e campanhas — ao alto
valor pago pela Prefeitura para manter o subsídio do transporte coletivo. “A
Santa Casa está fazendo feijoada para sobreviver enquanto o município paga mais
de dois milhões de reais por mês em subsídio do transporte. Prioridade é
escolha”, afirmou o vereador Tarzan. Segundo ele, o repasse do município ao
hospital em 2025 foi menor do que em anos anteriores, e isso contribuiu para a
intensificação do déficit. Ele também chamou atenção para o fato de que a Santa
Casa possui financiamento em andamento com a Caixa Econômica Federal, o que não
permitirá novas operações de crédito, tornando as emendas de custeio a única
saída imediata.
A vereadora Áurea Rosa também subiu à tribuna e fez um
discurso emocionado. Ela relatou ter enfrentado recentemente uma internação, e
por isso conhece a realidade do sistema. Áurea afirmou que a população está
sendo penalizada pela falta de medicamentos e pela demora no atendimento, e
declarou que “estamos brincando de fazer saúde”. Em sua fala, disse que
muitos tratamentos são iniciados, mas não concluídos por falta de remédios, o
que agrava o sofrimento dos pacientes. “O povo está doente e a Santa Casa
também”, afirmou. Ela elogiou o trabalho da Irmandade e dos voluntários,
mas responsabilizou o governo municipal e estadual pela falta de estrutura e
continuidade da assistência.
Apesar do clima tenso, a sessão seguiu com votações. Foi
aprovado em primeiro turno o projeto do vereador Júlio Ataíde que cria o
Mutirão da Saúde nos Bairros, iniciativa que leva atendimento preventivo
diretamente às regiões mais distantes do município. Júlio defendeu o projeto
afirmando que a saúde precisa ir até onde as pessoas estão, especialmente quem
não consegue chegar às unidades de atendimento. A vereadora Áurea também se
manifestou sobre esse projeto, dizendo que mutirões só se tornam necessários
quando o sistema regular não funciona plenamente. “Mutirão é importante, mas
existe porque os postos não estão funcionando com a capacidade necessária”,
afirmou.
Também foi aprovado, ainda em primeira votação, um projeto
que garante prioridade no atendimento psicológico a crianças e adolescentes
vítimas de abuso sexual. A proposta, também de autoria do vereador Júlio, prevê
que vítimas dessa violência tenham atendimento especializado na rede municipal,
evitando filas e garantindo acompanhamento imediato para reduzir traumas.
Ao final da noite, o sentimento que permaneceu no plenário
foi de alerta. A Santa Casa deixou claro que o problema não está em investir,
comprar equipamentos ou realizar mutirões: o problema está em manter o hospital
funcionando todos os dias. Sem recurso para custeio, não há energia,
medicamentos, enfermeiros, médicos, nem cirurgias programadas ou de urgência.
No último trecho de sua fala, Stuart resumiu a gravidade da situação com uma
frase que calou o plenário: “A Santa Casa não precisa de ajuda para
investir. Ela precisa de ajuda para continuar respirando.”
A sessão terminou com o recado lançado sobre a mesa: o
Legislativo precisará escolher entre discurso e prioridade. A população de
Itapeva, que depende do hospital todos os dias, aguarda a resposta. Porque,
como apontaram os números, quando o financiamento da saúde falha, quem paga a
conta é o paciente.

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