Pacientes enfrentam caos no Alto Custo de Itapeva: falta de medicamentos, estrutura precária e atendimento insuficiente
Com apenas dois atendentes para mais de 100 pessoas, relatos apontam ar-condicionado quebrado, mosquitos, filas desorganizadas e ausência de informação pública sobre remédios em falta; população cobra explicações da Prefeitura
O que deveria ser um serviço de apoio essencial à população em situação de maior vulnerabilidade transformou-se, na prática, em um teste diário de paciência, resistência física e indignação. Pacientes que dependem do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), conhecido como setor de “Alto Custo”, em Itapeva, relatam um cenário marcado por desorganização, falta de estrutura, carência de pessoal e, sobretudo, ausência de medicamentos fundamentais para o tratamento de doenças crônicas e graves.
A reportagem teve acesso a um relato enviado por um dos pacientes que aguardavam atendimento no local. O depoimento é direto e contundente. Segundo ele, apenas dois atendentes são responsáveis por atender mais de cem pessoas diariamente. A situação se agrava quando funcionários entram em período de férias sem reposição imediata, o que reduz ainda mais a capacidade de atendimento e amplia o tempo de espera. “Funcionário entra de férias e não tem outro para colocar no lugar?”, questiona o paciente, evidenciando falhas claras de planejamento administrativo.

As condições físicas do espaço também são alvo de duras críticas. O ambiente é descrito como abafado, com circulação de mosquitos e sem funcionamento adequado do ar-condicionado. Em um serviço que atende idosos, pessoas com doenças crônicas, pacientes imunossuprimidos e usuários em tratamento contínuo, a precariedade da estrutura deixa de ser mero desconforto e passa a representar risco à saúde. A insalubridade relatada contraria princípios básicos de atendimento humanizado e segurança sanitária.
Outro ponto recorrente nas queixas é a desorganização das filas. Pacientes relatam episódios de pessoas furando a ordem de atendimento, discussões constantes e excesso de conversas paralelas junto aos atendentes, o que acaba atrasando ainda mais o serviço. O clima de tensão se instala, e quem depende do medicamento sai do local com a sensação de abandono e desrespeito. A ausência de controle efetivo transforma o atendimento em um ambiente conflituoso, onde a paciência é constantemente testada.

Entretanto, o problema mais grave está na falta de medicamentos. Um aviso afixado no próprio local lista ao menos 11 remédios indisponíveis no setor de Alto Custo. Entre eles estão Calcipotriol pomada, Canabidiol, Caneta de Insulina Lispro, Ciprofibrato, Cloroquina 250 mg, Fenofibrato 250 mg, Leuprorrelina 3,75 mg, Levetiracetam 500 mg, Naproxeno 500 mg, Pilocarpina e Rituximabe. Trata-se de medicamentos utilizados em tratamentos contínuos, muitos deles essenciais para a estabilidade clínica e, em alguns casos, para a própria sobrevivência dos pacientes.

A principal indignação relatada não se limita à falta dos remédios, mas à completa ausência de informação prévia. Pacientes afirmam que não há qualquer aviso público, seja por meios digitais ou comunicados oficiais, alertando sobre a indisponibilidade dos medicamentos. “Remédios que não vieram deveriam ter sido informados publicamente à população para não perderem tempo, vindo ao Alto Custo e perdendo a viagem”, afirma o usuário. A crítica expõe um problema de comunicação institucional que penaliza diretamente quem já enfrenta dificuldades de saúde e locomoção.
A responsabilidade por esse cenário recai sobre a Prefeitura Municipal de Itapeva, especialmente sobre a gestão da saúde pública. Falta de pessoal, estrutura inadequada e comunicação ineficiente não são fatos isolados ou imprevistos. São consequências diretas de decisões administrativas e da ausência de planejamento compatível com a demanda real do serviço.
No relato encaminhado à reportagem, a cobrança é clara e objetiva: como a Prefeitura pretende responder a essa situação? A população espera mais do que justificativas genéricas. Espera ações concretas, como reforço imediato da equipe de atendimento, manutenção urgente da estrutura física, organização rigorosa das filas, combate à insalubridade e transparência absoluta sobre a disponibilidade de medicamentos.
O setor de Alto Custo não pode ser tratado como secundário. Para milhares de pacientes, ele representa a continuidade do tratamento e a possibilidade de uma vida minimamente digna. A omissão administrativa transforma a burocracia em mais um fator de sofrimento. Cabe ao poder público assumir responsabilidades, corrigir falhas e, sobretudo, respeitar quem depende diariamente do sistema público de saúde.

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