Política

DIRETO DA CÂMARA - Entre o improviso e o risco institucional, a Câmara de Itapeva escancara o colapso da gestão

A sessão da Câmara Municipal de Itapeva desta segunda-feira, 9 de fevereiro, não foi apenas longa. Foi densa, tensa e reveladora. Daquelas que, se alguém ainda insistia em tratar os problemas da cidade como “ruído de oposição”, saiu do plenário sem esse álibi. O que se viu foi um Legislativo pressionado por fatos concretos, mães desesperadas, vereadores perplexos e um Executivo que, mais uma vez, parece correr atrás do prejuízo — e nem sempre na direção correta.

O fio condutor da sessão foi a crise na educação inclusiva, detonada pela suspensão dos monitores e pela condução confusa de processos seletivos, leis mal explicadas e decisões administrativas tomadas sem diálogo. O resultado foi imediato: crianças atípicas sem atendimento adequado, pais sem orientação, professores sobrecarregados e escolas jogadas num improviso que beira a irresponsabilidade institucional. Não se trata de retórica inflamada. Trata-se de realidade relatada, em detalhes, por mães e vereadores que vivem o problema fora do ar-condicionado dos gabinetes.

A vereadora Áurea Rosa sintetizou o clima ao subir à tribuna visivelmente indignada. O que deveria ser uma política pública planejada transformou-se num jogo de empurra, em que ninguém sabe ao certo quem decide, quem responde e, pior, quem resolve. A insegurança tomou conta das famílias: levar ou não o filho à escola? Quem cuida? Quem responde se algo acontecer? Perguntas simples, respostas inexistentes. A fala da vereadora expôs o que muitos tentam maquiar: quando o poder público falha na base, o custo humano é imediato e cruel.

A crise, porém, não parou na educação. Como se não bastasse o caos nas escolas, veio à tona outro problema ainda mais grave: a falta de medicamentos de uso contínuo e de alto custo, especialmente para pacientes transplantados e renais. Aqui, o debate deixou o campo administrativo e entrou definitivamente no terreno moral. Vereadores relataram casos de pacientes sem previsão de recebimento de remédios essenciais, situação que pode levar à perda de transplantes ou à morte. Não é força de expressão. É diagnóstico clínico relatado em plenário.

A comparação feita por parlamentares mais experientes foi direta e incômoda: quando o Estado falha, o município não pode cruzar os braços alegando entraves burocráticos. Há momentos em que a decisão política precisa se impor à formalidade fria dos papéis. O argumento de que “o processo licitatório impede” não se sustenta diante do risco concreto à vida. Como bem lembrou um ex-prefeito que hoje ocupa cadeira no Legislativo, governar é decidir — e responder por essas decisões.

O tom da sessão foi se elevando à medida que se acumulavam exemplos de desorganização administrativa. Falta de diálogo com a Câmara, secretarias que não respondem ofícios, demandas básicas ignoradas e uma sensação crescente de que a máquina pública funciona aos solavancos. O vereador Vanderlei Pacheco trouxe imagens e relatos sobre mato alto, risco de escorpiões, unidades de saúde cercadas pelo abandono e pedidos protocolados que simplesmente não andam. Não se trata de luxo urbano, mas de saúde pública elementar.

O ponto mais sensível, contudo, foi a advertência jurídica feita sem rodeios: manter crianças com deficiência sem o suporte adequado pode configurar crime. Não é opinião, é legislação federal. A Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente e as normas de inclusão não admitem atalhos. Lei não se negocia, cumpre-se. E quando o Executivo insiste em soluções improvisadas, transfere para si um risco que não é apenas político, mas legal.

Ao longo da sessão, ficou claro que a Câmara, longe de ser um bloco homogêneo de oposição ou situação, caminha para um raro consenso: algo precisa mudar, e rápido. A cobrança deixou de ser pontual e passou a ser estrutural. Falta planejamento, falta coordenação, falta assessoria jurídica eficiente e, sobretudo, falta escuta. O governo municipal parece governar para dentro, quando deveria governar olhando para fora — para a população que paga a conta.

A promessa de reuniões com o Ministério Público, ajustes emergenciais e convocações paliativas pode até aliviar o curto prazo, mas não resolve o problema de fundo. A gestão pública não sobrevive de remendos. Cada improviso gera um novo foco de crise, como bem resumiu uma vereadora: resolve-se um problema criando outro maior logo adiante.

A sessão terminou como começou: sem respostas definitivas, mas com um recado cristalino. O Legislativo não aceitará mais ser informado depois do fato consumado. As mães atípicas não aceitarão mais promessas vagas. E a população, cada vez mais atenta, começa a perceber que a conta do improviso sempre chega — em forma de sofrimento, insegurança ou risco à vida.

No plenário, ficou evidente que o desgaste do Executivo não nasce da crítica política, mas da realidade concreta. Quando falta remédio, quando falta monitor, quando falta gestão, não há discurso que sustente. A Câmara fez sua parte: expôs, cobrou, alertou. Resta saber se o outro lado da Praça aceita o recado ou seguirá apostando que o tempo — e o cansaço da população — resolvem tudo. A história recente mostra que não resolvem.

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