DIRETO DA CÂMARA - Denúncias sobre casa de acolhimento e cobrança por providências marcam sessão na Câmara de Itapeva
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Itapeva realizada
na noite de quinta-feira, 5 de março, começou dentro da liturgia tradicional do
Legislativo: aprovação de atas, leitura do expediente e encaminhamento de
matérias às comissões. Porém, bastou a abertura do tema livre para que a
reunião ganhasse contornos de debate político intenso, com vereadores trazendo
à tribuna denúncias, cobranças administrativas e questionamentos sobre
contratos e serviços públicos prestados à população.
O assunto que mais mobilizou o plenário foi a situação da
casa de acolhimento institucional destinada a crianças e adolescentes em
situação de vulnerabilidade. O tema surgiu após o desaparecimento de duas
adolescentes que estavam sob responsabilidade do serviço. O episódio levantou
uma série de questionamentos sobre os protocolos adotados no momento do
desaparecimento e sobre o funcionamento da estrutura de acolhimento no
município.
Durante a sessão, parlamentares relataram que o registro
oficial do desaparecimento - boletim de ocorrência, teria ocorrido somente após o transcorrer de um
período considerado excessivo, o que, na avaliação de alguns vereadores, pode
ter comprometido as primeiras ações de busca. A demora também teria dificultado
a mobilização de forças de segurança e de órgãos responsáveis pela proteção de
menores.
A discussão ganhou novos contornos quando surgiram relatos
de possíveis irregularidades dentro da instituição responsável pelo
acolhimento. Entre as denúncias mencionadas no plenário estariam falhas na
supervisão das crianças, episódios envolvendo medicação inadequada e outras
situações consideradas graves, que agora devem ser objeto de apuração mais
detalhada.
O debate sobre o acolhimento de menores ganhou contornos
ainda mais contundentes com a fala da vereadora Áurea Rosa. Em um discurso
marcado por indignação, a parlamentar afirmou que denúncias recebidas por
vereadores indicariam situações extremamente graves dentro da instituição
responsável pelo acolhimento. Entre as acusações mencionadas, Áurea citou casos
de medicação inadequada, tentativas de suicídio de adolescentes e até relatos
de abuso envolvendo menores dentro da própria instituição.
Segundo a vereadora, o município estaria pagando cerca de R$ 11 mil mensais por cada criança acolhida, valor que, na sua avaliação, não se justifica diante das falhas relatadas. Ela defendeu que o serviço seja retomado diretamente pela prefeitura, utilizando servidores públicos municipais capacitados, em vez de permanecer terceirizado para uma empresa sediada em outra cidade.
Áurea também criticou a renovação contratual que permitiu a
continuidade da empresa responsável pelo serviço, mesmo após episódios
considerados graves. A parlamentar chegou a afirmar que poderá apresentar
representação contra autoridades municipais caso as adolescentes desaparecidas
não sejam localizadas e o caso não seja devidamente esclarecido.
O presidente da Câmara, vereador Marinho Nishiyama, também
se pronunciou sobre o tema e afirmou que a situação já vinha sendo denunciada
desde legislaturas anteriores. Segundo ele, houve tentativas de levar as
irregularidades ao Ministério Público, mas sem avanços concretos à época. Marinho
destacou que a Constituição Federal estabelece responsabilidade compartilhada
entre família, sociedade e poder público na proteção de crianças e
adolescentes, lembrando que o acolhimento institucional deve garantir
justamente a proteção de direitos que já foram violados anteriormente.
Outro ponto levantado pelo presidente foi o custo do serviço
terceirizado. Segundo ele, estudos apresentados anteriormente indicariam que o
município poderia economizar mais de R$ 300 mil se o atendimento fosse
executado diretamente por servidores municipais.
O vereador Tarzan reforçou o coro por providências e
defendeu a realização de uma reunião extraordinária da comissão responsável
pela área de assistência social para formalizar um documento cobrando medidas
do Executivo. Ele também sugeriu que o caso seja encaminhado oficialmente ao
Conselho Tutelar, ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do
Adolescente e ao Ministério Público.
Durante a sessão, Tarzan também aproveitou para criticar
práticas administrativas que, segundo ele, prejudicam a eficiência da gestão
pública. O parlamentar afirmou que é papel do poder público revisar contratos e
renegociar custos quando necessário, argumentando que a administração municipal
precisa demonstrar maior rigor no controle das despesas e na condução de
processos licitatórios.
Enquanto a crise envolvendo o acolhimento institucional
dominava o debate político, outros temas também foram discutidos no plenário. O
vereador Júlio Ataíde voltou a defender a valorização do chamado quadro de apoio
escolar, formado por profissionais como merendeiras, auxiliares de serviços
gerais, orientadores de alunos e secretários de escola. Segundo ele, trata-se
de um grupo fundamental para o funcionamento das unidades de ensino, mas que há
anos não recebe reajustes significativos ou melhorias na carreira.
Júlio afirmou que em praticamente todas as visitas que
realiza às escolas municipais recebe relatos de dificuldades enfrentadas por
esses profissionais, incluindo condições de trabalho e defasagem salarial. Para
o vereador, a administração municipal precisa iniciar estudos para rever a
remuneração e a estrutura de carreira desses servidores.
A sessão também teve manifestações de apoio a essa pauta. O
vereador Vanderlei Pacheco, que afirmou ter origem no próprio quadro de apoio
escolar, declarou que votará favoravelmente a qualquer proposta que resulte em
valorização dos servidores públicos municipais.
Ao final da sessão, ficou evidente que a Câmara atravessa um
momento de forte mobilização política em torno de temas sensíveis da
administração municipal. O caso da casa transitória, em particular, deverá
continuar dominando o debate público nas próximas semanas, sobretudo se as
denúncias levantadas pelos vereadores avançarem para investigações formais.
Se confirmadas, as irregularidades apontadas não
representarão apenas um problema administrativo. Estarão diante de algo mais
grave: a falha do sistema público justamente no ponto em que ele deveria ser
mais rigoroso — a proteção de crianças e adolescentes em situação de
vulnerabilidade. E, quando isso acontece, não se trata apenas de política.
Trata-se de responsabilidade moral do poder público diante daqueles que mais
precisam de proteção.

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