DIRETO DA CÂMARA - Denúncias sobre o esporte e críticas à gestão dominam sessão da Câmara de Itapeva
Tribuna do povo levanta suspeitas sobre contratos e
arbitragem na Secretaria de Esportes, enquanto vereadores apontam falhas
administrativas, perda de recursos e cobram respostas do Executivo
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Itapeva realizada na noite de segunda-feira, 9 de março, evidenciou mais uma vez o clima de tensão que marca o atual momento político da cidade. Entre denúncias, cobranças e debates sobre políticas públicas, o plenário tornou-se palco de críticas contundentes à condução administrativa do município e à situação de setores estratégicos, especialmente o esporte e a saúde.
Logo no início dos trabalhos, após a aprovação da ata da
sessão anterior e a leitura de correspondências do Executivo em resposta a
requerimentos dos vereadores, a sessão ganhou novos contornos com a
participação de um cidadão na chamada Tribuna do Povo. O espaço foi ocupado por
Mário Antônio de Barros, conhecido no meio esportivo local, que levou ao
plenário uma série de denúncias relacionadas à Secretaria Municipal de
Esportes.
Em tom crítico e afirmando possuir documentos e provas, o munícipe relatou que vem denunciando supostas irregularidades desde 2023. Segundo ele, haveria um suposto monopólio na prestação de serviços de arbitragem em competições esportivas organizadas pela prefeitura. De acordo com suas declarações, empresas ligadas ao mesmo grupo estariam sendo beneficiadas em contratos e atividades relacionadas aos eventos esportivos da cidade.
O denunciante afirmou ainda que valores destinados à arbitragem chamam atenção pela dimensão. Em sua fala, mencionou estimativas de despesas que chegariam a cerca de R$ 370 mil ao ano, valor que, segundo ele, não corresponderia ao volume real de partidas realizadas. Também questionou contratos de fornecimento de materiais esportivos e alegou que editais de licitação teriam sido elaborados de forma a favorecer determinados fornecedores.
Outra denúncia apresentada diz respeito ao pagamento de recursos a entidades esportivas sem o cumprimento de requisitos legais, como registros exigidos por conselhos específicos. O cidadão afirmou que parte das informações já foi encaminhada à corregedoria do município e ao Ministério Público, incluindo documentos e comprovantes que, segundo ele, somariam centenas de páginas.
Após a manifestação, o presidente da Câmara determinou que as falas fossem registradas oficialmente e encaminhadas à prefeitura para esclarecimentos, conforme prevê o regimento interno do Legislativo. A iniciativa abriu espaço para um debate mais amplo entre os vereadores, que passaram a comentar as denúncias e discutir possíveis providências.
Uma das primeiras reações veio da vereadora Aurea Rosa, que
afirmou considerar as acusações graves e defendeu que o Legislativo analise
cuidadosamente toda a documentação apresentada. Segundo ela, caso existam
elementos suficientes, a Câmara tem o dever institucional de investigar os
fatos e eventualmente instaurar uma comissão específica para apuração.
Durante sua intervenção, a parlamentar também ampliou o
debate para outros problemas enfrentados pela cidade. Ela criticou a manutenção
urbana e afirmou que a população tem reclamado constantemente de serviços
básicos, como roçada de áreas públicas e limpeza urbana. Segundo a vereadora, a
situação demonstra falta de planejamento e dificulta o desenvolvimento do
município.
Outro ponto abordado foi a situação da Farmácia Popular municipal, onde, segundo relatos apresentados na tribuna, moradores
enfrentariam filas que podem chegar a três horas de espera para retirar
medicamentos. A parlamentar afirmou que as reclamações da população chegam
diariamente aos vereadores e cobrou maior eficiência administrativa para
resolver problemas considerados elementares.
A discussão sobre o esporte voltou ao centro do debate
quando vereadores passaram a comentar as denúncias feitas pelo cidadão. O
vereador Ronaldo Coquinho afirmou que as acusações precisam ser apuradas,
especialmente por envolverem recursos públicos e contratos administrativos.
Para ele, a Câmara deve exercer sua função fiscalizadora e solicitar documentos
que permitam esclarecer os fatos.
Segundo o parlamentar, como já existe uma comissão especial
de investigação analisando contratos e possíveis irregularidades
administrativas no município, seria possível incluir os contratos da Secretaria
de Esportes no escopo dessa apuração. A proposta recebeu apoio de outros
vereadores presentes.
Ainda no debate sobre políticas públicas, o vereador Tarzan
apresentou uma proposta voltada à recuperação de receitas municipais. Ele
defendeu a chamada securitização da dívida ativa, mecanismo que permitiria ao
município antecipar valores de tributos em atraso por meio de operações
financeiras com empresas especializadas em cobrança.
Segundo o vereador, o modelo já estaria sendo adotado por
municípios da região e poderia representar ingresso significativo de recursos
nos cofres públicos sem aumento de impostos. Ele argumentou que a medida
poderia melhorar a capacidade financeira da prefeitura para investir em áreas
como infraestrutura e serviços públicos.
Outro tema discutido foi o transporte escolar. Vereadores
comentaram a suspensão de um edital de licitação que tratava da contratação do
serviço. Segundo relatos apresentados em plenário, a concorrência pública teria
sido estruturada em lotes, modelo que poderia favorecer grandes empresas e
dificultar a participação de transportadores locais.
Parlamentares defenderam que a licitação seja reformulada
para contratação por rotas, permitindo maior concorrência e participação de
profissionais que já atuam no transporte escolar da zona rural. A discussão
também abordou os impactos sociais da mudança, especialmente para famílias que
dependem do serviço para garantir o acesso dos estudantes às escolas.
A sessão ainda registrou críticas à condução de políticas
públicas em áreas como saúde e assistência social. Entre os temas levantados,
foi citada a demora em atendimentos médicos especializados e a necessidade de
implantação de programas voltados ao atendimento de crianças com transtorno do
espectro autista.
Vereadores que visitaram o município de Paranapanema
relataram experiências de programas implantados naquela cidade e defenderam que
iniciativas semelhantes sejam discutidas em Itapeva. Entre as propostas
mencionadas está a criação de um modelo de atendimento integrado para crianças
autistas em parceria com entidades locais.
Ao final da sessão, ficou evidente que a noite foi marcada
menos pela votação de matérias legislativas e mais pelo debate político e pelas
cobranças dirigidas ao Executivo. A combinação de denúncias, críticas
administrativas e propostas de políticas públicas revelou um cenário de forte
pressão sobre a gestão municipal.
Se por um lado as acusações relacionadas ao esporte ainda
dependem de investigação formal para confirmação, por outro elas expõem uma
realidade recorrente nas sessões da Câmara: o plenário tem se transformado em
um espaço cada vez mais frequente de denúncia e contestação da administração
municipal.
No meio desse cenário, a expectativa agora se volta para os
próximos passos. Caberá à prefeitura apresentar esclarecimentos sobre as
denúncias e aos vereadores decidir se as suspeitas levantadas na tribuna
justificarão a abertura de novas investigações legislativas.
Enquanto isso, a sessão desta segunda-feira deixou um recado
claro: em Itapeva, o debate político segue intenso — e, ao que tudo indica,
ainda está longe de arrefecer.

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