Cassada - Câmara de Itapeva derruba mandato da primeira prefeita eleita da cidade
Após três meses de processo, vereadores apontam irregularidades administrativas e encerram gestão de Adriana Duch; vice Generci Neves assume o comando do Executivo
A sessão que atravessou a noite desta quarta-feira não terminou apenas com votos — terminou com a queda de um mandato que carregava, até então, um simbolismo político incontestável. A primeira mulher eleita prefeita de Itapeva foi retirada do cargo pelos próprios vereadores, num julgamento que expôs não apenas falhas administrativas, mas também a fragilidade de uma gestão que, desde o início, conviveu com questionamentos internos e externos. A cassação de Adriana Duch não é apenas um desfecho institucional; é, sobretudo, um retrato de como a política de Itapeva continua sendo um terreno onde promessas eleitorais sucumbem diante da realidade dos atos administrativos.
O processo que culminou na decisão teve origem em denúncia apresentada pela cidadã Setembrina Lourenço de Oliveira e ganhou corpo ao longo de quase três meses. Nesse período, a Comissão Processante realizou 16 reuniões, promoveu 13 oitivas e analisou um volume expressivo de documentos — um material que, segundo o parecer final, foi suficiente para sustentar a condenação em quatro dos seis incisos previstos no Decreto-Lei que rege as infrações político-administrativas. Não se tratou, portanto, de um julgamento apressado. Ao contrário: foi um procedimento que seguiu rito formal, com ampla produção de provas e espaço garantido à defesa.
Entre os pontos que pesaram contra a então prefeita estão acusações que, embora distintas em natureza, convergem para um mesmo eixo: o desrespeito às normas que regem a administração pública. A contratação de serviços no município de Apiaí sem a observância das formalidades legais foi um dos pilares da denúncia. Soma-se a isso o reiterado descumprimento de requerimentos da Câmara Municipal — um gesto que, na prática, enfraquece o princípio da transparência e compromete a relação entre os Poderes. A lista ainda inclui a omissão no cumprimento do Código de Proteção Animal e a concessão de isenções indevidas de IPTU e TSU a imóveis localizados nos bairros Vila Santa Maria, Vila São Francisco e Vila Presépio.
A decisão dos vereadores, contudo, deve ser compreendida dentro de seus limites institucionais. A cassação não implica inelegibilidade, tampouco configura punição de natureza penal. Adriana Duch não perde seus direitos políticos nem sofre qualquer sanção criminal automática. O que houve foi a aplicação da sanção máxima dentro do âmbito político-administrativo: a perda do mandato. Eventuais desdobramentos judiciais dependerão de análise própria do Poder Judiciário, que poderá — ou não — entender que os fatos justificam medidas mais severas. Em outras palavras, a Câmara encerra sua parte no processo, mas não encerra necessariamente a história.
O impacto político da decisão é imediato e profundo. Com a saída de Adriana Duch, quem assume a Prefeitura é o vice-prefeito Generci Neves, eleito na mesma chapa e agora alçado à condição de titular do Executivo municipal até o fim do mandato, em dezembro de 2028. A posse está marcada para a manhã desta quinta-feira, no plenário da Câmara — um cenário simbólico, onde horas antes se decretava o fim de uma gestão e, na sequência, se inaugura outra. A transição, ao menos formalmente, ocorre sem ruptura institucional, mas carrega o peso de um contexto conturbado.
Itapeva, aliás, já conhece esse tipo de turbulência. A cassação de Adriana Duch marca a segunda interrupção de mandato em pouco mais de seis anos. Em 2019, o então prefeito Luiz Cavani foi afastado por decisão judicial, abrindo espaço para que o vice, Mário Tassinari, assumisse o comando da cidade. Tassinari, por sua vez, também enfrentou processos de cassação ao longo de sua gestão, mas conseguiu sobreviver politicamente por falta dos votos necessários para sua destituição. O histórico recente revela uma constante: a instabilidade política como elemento recorrente na administração municipal.
A trajetória de Adriana Duch no cargo foi relativamente curta. Empossada em 1º de janeiro de 2025, após conquistar 19.956 votos nas urnas, ela chegou ao poder carregando o peso de expectativas elevadas — tanto pelo ineditismo de sua eleição quanto pelo discurso de renovação que marcou sua campanha. No entanto, pouco mais de um ano depois, o que se vê é um mandato interrompido por uma combinação de erros administrativos e desgaste político. A simbologia da primeira prefeita eleita cede lugar a um desfecho que, embora juridicamente fundamentado, não deixa de ser politicamente devastador.
O episódio lança uma sombra sobre a relação entre Executivo e Legislativo no município. A acusação de desatendimento a requerimentos da Câmara, por exemplo, não é um detalhe técnico; é um sintoma de ruptura institucional. Quando o diálogo entre os Poderes se deteriora, o resultado costuma ser previsível: conflitos se intensificam, a governabilidade se enfraquece e o ambiente político se torna propício a crises como a que agora se concretizou. A cassação, nesse sentido, é tanto consequência quanto evidência de um relacionamento institucional que falhou.
Para a população, o que fica é um cenário de incerteza. A troca no comando do Executivo ocorre em meio a questionamentos sobre a condução da gestão pública e levanta dúvidas sobre a continuidade de políticas, contratos e projetos em andamento. Generci Neves assume com o desafio imediato de estabilizar a administração e reconstruir a confiança — tarefa que, em um ambiente já desgastado, exigirá habilidade política e rigor técnico.
A história recente de Itapeva mostra que a cadeira de prefeito, por ali, não tem sido um lugar de estabilidade. A sucessão de crises e interrupções de mandato sugere que os problemas vão além de nomes ou circunstâncias específicas. Há, possivelmente, uma questão estrutural, que envolve desde a qualidade da gestão até a forma como se estabelece o controle político e institucional. A cassação de Adriana Duch não resolve esse problema. No máximo, escancara sua existência.
No fim das contas, o julgamento desta quarta-feira não foi apenas sobre uma prefeita. Foi sobre o funcionamento — ou o mau funcionamento — de um sistema político que, mais uma vez, produziu um desfecho abrupto. E, como já se viu antes, a troca de comando não garante, por si só, a correção de rota. Em Itapeva, a política segue sendo um campo onde o mandato começa nas urnas, mas pode terminar bem antes do previsto.

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