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Amor não é posse: Capitão PM alerta para sinais silenciosos da violência contra a mulher

A ideia de que homens “são donos” de mulheres não é só ultrapassada ela sustenta comportamentos que, em muitos casos, evoluem para diferentes formas de violência

A violência contra a mulher continua sendo uma das mais persistentes violações de direitos humanos no mundo e no Brasil, os números seguem alarmantes. Por trás de muitos desses casos, existe uma raiz cultural silenciosa: a crença de que a mulher é propriedade do homem.

Esse pensamento não surge do nada. Ele é fruto de uma construção histórica marcada pelo machismo estrutural, onde, por séculos, a mulher foi vista como subordinada ao homem dentro de casa, no trabalho e na sociedade. Embora avanços importantes tenham sido conquistados, essa mentalidade ainda resiste muitas vezes disfarçada de “ciúmes”, “proteção” ou até “amor”.

O problema é que controle não é cuidado. Quando um homem tenta decidir com quem a mulher fala, o que veste, para onde vai ou como vive, isso não é demonstração de afeto é um sinal claro de abuso.

A violência contra a mulher não começa necessariamente com agressões físicas. Ela pode se manifestar de forma psicológica, moral, patrimonial e sexual. Muitas vítimas demoram a reconhecer que estão em uma relação abusiva justamente porque esses comportamentos são normalizados.

No Brasil, a Lei Maria da Penha representa um marco no enfrentamento dessa realidade. A legislação reconhece as múltiplas formas de violência e estabelece mecanismos de proteção às vítimas, além de responsabilizar os agressores. Ainda assim, a lei, por si só, não resolve o problema é preciso mudança cultural.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Isso representa cerca de 736 milhões de vítimas, sendo que, na maioria dos casos, o agressor é alguém próximo frequentemente o próprio parceiro.

No Brasil, o cenário não é diferente. Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que ocorre, em média, um feminicídio a cada seis a sete horas. Além disso, são registrados mais de 245 mil casos de violência doméstica por ano. Especialistas alertam que esses números podem ser ainda maiores, já que muitos episódios não chegam ao conhecimento das autoridades.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) reforça a gravidade da situação ao destacar que cerca de 70% dos feminicídios acontecem dentro de casa, evidenciando o ambiente doméstico como o principal cenário de risco. Em grande parte dos casos, o autor é o companheiro ou ex-companheiro da vítima.

Estima-se que menos da metade das vítimas denuncie seus agressores. O medo, a dependência financeira, a vergonha e a pressão social são fatores que contribuem para o silêncio. Esse cenário dificulta o combate efetivo ao problema e perpetua o ciclo de violência.

Além do impacto direto na vida das vítimas, a violência contra a mulher gera consequências profundas para a sociedade. Os custos para os sistemas de saúde e segurança pública são elevados, enquanto os danos emocionais atingem não apenas as mulheres, mas também seus filhos e familiares, criando um ciclo intergeracional de sofrimento.

O perfil das vítimas, em geral, concentra-se em mulheres entre 18 e 44 anos, muitas vezes em situação de vulnerabilidade social. No entanto, a violência não escolhe classe, raça ou nível educacional ela pode atingir qualquer mulher.

Educação é parte fundamental dessa transformação. Ensinar desde cedo que relacionamentos devem ser baseados em respeito, igualdade e liberdade é um passo essencial para quebrar esse ciclo. Homens precisam ser parte ativa dessa mudança, questionando comportamentos tóxicos e abandonando a ideia de posse.

Também é fundamental fortalecer redes de apoio. Mulheres que enfrentam violência precisam de acolhimento, informação e segurança para denunciar. O silêncio, muitas vezes imposto pelo medo ou pela dependência emocional e financeira, só perpetua o ciclo da violência.

Combater a violência contra a mulher não é uma pauta exclusiva das mulheres é uma responsabilidade coletiva. Enquanto ainda houver quem confunda amor com controle, respeito com submissão e relacionamento com propriedade, a sociedade seguirá falhando.

“Amar não é possuir. Amar é respeitar, apoiar e reconhecer o outro como livre. Qualquer coisa fora disso não é amor é violência.”

por: Capitão PM Vilmar Duarte Maciel é oficial da Polícia Militar, Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, pelo Centro Autos Estudos da Policia Militar do Estado de São Paulo (CAES), possui vários artigos científicos na área de segurança pública e com experiência em gestão de segurança pública.

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