Fundo eleitoral emperra no TSE e candidatos começam campanha à espera de dinheiro
Ação do PT sobre cálculo de sua cota travou R$ 2,3
bilhões às vésperas do início da propaganda; partido desistiu do processo, mas
página oficial do TSE ainda não informa a liberação dos recursos
O Brasil
conseguiu produzir mais uma daquelas cenas que só a burocracia eleitoral sabe
oferecer. A campanha começou oficialmente no último domingo, 16 de agosto,
candidatos já percorrem cidades, inauguram comitês, gravam vídeos, contratam
equipes e pedem votos. Só há um detalhe: boa parte do dinheiro público
reservado justamente para financiar essa engrenagem continua sem chegar aos
partidos e, consequentemente, às contas de muitos candidatos. Não se trata de
trocado. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 soma R$ 4,96
bilhões, dinheiro que a União disponibilizou ao Tribunal Superior Eleitoral
ainda em 1º de junho.
O
problema ganhou tamanho nacional na semana passada. Em 13 de agosto, três dias antes
do início oficial da campanha, o TSE começou a julgar uma ação apresentada pelo
PT para revisar o cálculo da parcela destinada ao partido. A legenda sustentava
que deveriam ser considerados 69 deputados federais eleitos em 2022, e não 68,
como contabilizado pela Justiça Eleitoral. A diferença pretendida pelo partido
era relativamente modesta diante do tamanho do fundo: a cota petista poderia
subir de aproximadamente R$ 615,4 milhões para cerca de R$ 620 milhões. Mas a
discussão de alguns milhões conseguiu estacionar bilhões.
A razão
está na fórmula de distribuição. Quase metade do Fundo Eleitoral — 48% — é
repartida proporcionalmente ao tamanho das bancadas dos partidos na Câmara dos
Deputados. Alterar o número considerado para uma legenda exige refazer a conta
das demais. Durante o julgamento, a ministra Estela Aranha pediu vista,
interrompendo a análise. O resultado foi imediato: aproximadamente R$ 2,3
bilhões dessa parcela ficaram retidos enquanto a controvérsia permanecesse
aberta. Era como interromper uma rodovia inteira para conferir a calibragem de
um pneu.
A
repercussão fez o PT recuar. Em 14 de agosto, o partido desistiu da ação e
pediu ao TSE a extinção do processo sem julgamento do mérito, além da liberação
imediata da parcela que permanecia travada. A decisão foi politicamente
compreensível: nenhuma legenda gostaria de carregar nas costas a acusação de
ter ajudado a atrasar o financiamento eleitoral de praticamente todo o sistema
partidário no momento em que a campanha começava. A desistência, porém, não
transforma automaticamente dinheiro público em saldo disponível na conta do
candidato.
Até esta
quinta-feira, 20 de agosto, a própria página oficial do TSE dedicada ao FEFC de
2026 apresenta os processos em que os partidos informaram seus critérios de
distribuição, mas mantém vazia a coluna “FEFC liberado em” para as legendas
listadas. Estão ali PL, PT, Progressistas, MDB, PSD, Republicanos, União Brasil
e várias outras siglas, cada uma com seu processo de critérios registrado, mas
sem data publicada de liberação. O dado não permite concluir que nenhuma
movimentação administrativa tenha ocorrido internamente nas últimas horas, mas
revela que a Justiça Eleitoral ainda não tornou pública, naquele painel, a
informação que candidatos mais desejam enxergar.
Há outro
componente nesse quebra-cabeça. Nesta sexta-feira, 21 de agosto, termina o
prazo para o TSE divulgar os percentuais nacionais de candidaturas femininas,
negras e indígenas apresentados por cada partido. Esses números servem de base
para as reservas obrigatórias de recursos públicos. O Tribunal também alterou
recentemente o calendário e prorrogou para 8 de setembro o prazo final para a
distribuição dos valores correspondentes a esses percentuais mínimos. Isso não
significa que todos os candidatos precisem esperar até setembro, mas oferece
aos partidos uma margem maior para fechar as contas internas.
É
justamente aí que começa a segunda etapa da novela. Mesmo depois que o TSE
liberar o dinheiro aos diretórios nacionais, não existe depósito automático
para cada candidato. A legislação determina que as executivas nacionais
estabeleçam os critérios de distribuição. Cada legenda decide, dentro das
regras eleitorais e das reservas obrigatórias, quem receberá, quanto receberá e
em que momento. Portanto, o candidato pode sobreviver ao congestionamento do
TSE e ainda encontrar outro pedágio dentro do próprio partido.
O
episódio expõe uma contradição difícil de esconder. O país reservou quase R$ 5
bilhões de dinheiro público para financiar campanhas, cumpriu antecipadamente a
obrigação de colocar os recursos à disposição da Justiça Eleitoral e, quando
chegou a hora em que o dinheiro deveria cumprir sua finalidade, uma
controvérsia judicial sobre o tamanho de uma bancada ajudou a estacionar R$ 2,3
bilhões. Enquanto Brasília calcula, recalcula, julga, suspende e homologa,
candidatos no interior descobrem que eleição não espera despacho: gráfica
cobra, combustível custa, equipe precisa receber e o calendário continua
correndo.
O Fundo
Eleitoral não desapareceu. Também não faltou dinheiro. Ele está preso entre
decisões judiciais, procedimentos administrativos, cotas legais e critérios
partidários. A pergunta que circula nos bastidores já não é quanto existe no
fundo. Isso todo mundo sabe. A pergunta é mais simples e mais incômoda: quando,
afinal, esse dinheiro chegará a quem já está oficialmente em campanha? Num país
em que cada dia de campanha vale ouro, a demora transforma burocracia em
vantagem política para quem dispõe de estrutura própria e dinheiro privado para
largar na frente.

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